rendição

Março 4, 2015 § Deixe um comentário

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sentido

Novembro 5, 2014 § Deixe um comentário

Há quem goste de inspirar a luz e a energia do nascer do dia. Outros preferem desacelerar ao ritmo do sol, ao entardecer.

Mas, entre as quatro e as cinco da tarde, a maioria anda ocupada ou distraída.

Em vez dos céus matizados de laranja ou rosa, um flash de luz que nos cega, a meio do dia, quando ainda há tanto por fazer.

Um clarão que obriga a fechar os olhos e enfrentar as perguntas:
O que vês? Mc 8, 22-26
Quem está diante de ti e ao teu lado, na correria dos dias?

Um convite a abrir o olhar e a “botar sentido”.

As horas importantes atravessam-se pelo meio da vida, quase despercebidas, mas trazem um vento de serenidade e um calor que despertam a memória. E, então, reconhecemos, como aqueles dois de Emáus, o milagre que se esconde no tempo que vivemos em comum, que vence os limites da matéria e se torna fonte de vida nova.

Ribeira d’Ilhas, 2014, entre as 4 e as 5 da tarde
(lembrando o postal escrito em 2012)

(in)completas

Agosto 26, 2014 § Deixe um comentário

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente mais próximo

Sophia de Mello Breyner Andresen

(adulterado por mim)

viver

Julho 6, 2014 § Deixe um comentário

Viver. Não há outra saída airosa. Viver até ao limite das forças, dando a cada célula em pânico a ilusão da esperança. (…) Mas, a ganhar ou a perder, nenhum bem se compara ao de acordar de manhã e aninhar nos olhos a paisagem do mundo. Mesmo todo em ferida. Mesmo desenganado. Por isso, teimar. Resistir de corpo e alma até onde o coração der. Que a nossa morte seja uma vilania sofrida, e não uma cobardia cometida.

Miguel Torga escreveu estas palavras em Coimbra, a 2 de Março de 1986 (Diário XIV).

Li-as, pela primeira vez, no Natal de 2013, quando fui a uma livraria trocar o livro intragável que tinha um hipopótamo na capa.
Reli-as e senti-as na pele, durante os meses seguintes. Quem diria que Torga seria o meu companheiro, nas horas passadas com o meu Pai e nas escadas do HSM?

bom senso

Junho 10, 2014 § Deixe um comentário

Comecei este rascunho há mais de um ano.
Gostava de traduzir o vídeo.

Um dia, disseram-me esta blasfémia com a ilusão de trazer algum consolo: “deus só manda este sofrimento aos seus amigos”. Graças a Deus, “passei-me” logo ali e respondi: NÃO!

Era a véspera de Pentecostes do ano da Graça de 2009. Acho que é desde esse dia que ando, literalmente, a “passar-me” para a confiança na bondade de Deus.

Recordei tudo isto quando ouvi Pagola: “o assunto da bondade de Deus é uma questão de ter bom senso”.

Estas foram as palavras do arcebispo de Paris, quando enfrentava uma doença terminal:
“Nós sabemos dizer belas palavras sobre o sofrimento. Eu falei dele acaloradamente. Dizei aos sacerdotes que não digam nada. Nós ignoramos o que é sofrer”.

Diante do sofrimento só há lugar para silêncio, mãos abertas e Amor, capaz de amar tudo, capaz de enfrentar o rosto desfigurado e impaciência de quem sofre, já sem forças para se fazer de forte.
É cruel esta tendência perversa para sublimar o sofrimento, procurando-lhe um sentido. “Em vez de perguntar «porquê», pergunta «para quê»”, dizem alguns. Escrevem-se livros; compõem-se sorrisos; erguem-se pedestais a quem sofre impassível, sem se desequilibrar, sem se despentear.
Desumano!
Nas horas de dor excruciante o único bálsamo é o Amor feito da verdadeira hospitalidade-gastvrijheid, que dá liberdade ao outro.

Sempre que me agarrava à confiança e recitava de coração o salmo 118, recordava-me de ti, Yeshu. Também sabias de cor esta ladainha de esperança.
Deus só é BOM. Deus só é BOM. Deus só é BOM.

 

vigílias

Maio 4, 2014 § Deixe um comentário

pintura de Emma Cano

pintura de Emma Cano

Deu-me à luz no final de um turno no hospital.

Em casa, para além do ritmo dos filhos e do Rui, havia outro compasso, marcado pelo horário da São: manhã, manhã, tarde, tarde, noite, noite, descanso, folga. Quando surgia algum contratempo, os turnos sobrepunham-se, mas o ritmo continuava: manhã, manhã, tarde, tarde, noite, noite, descanso, folga…. Depois das noites, a adrenalina continuava mais tempo em circulação. O cansaço só chegava depois do descanso. É preciso repousar para que o cansaço desça aos músculos e comece o trabalho de reparação. O milagre da harmonia, entre os ritmos de todos, acontecia graças à Avó.

A agenda já não está marcada com os círculos abertos que assinalavam as manhãs; as barras, as tardes; os pontos, as noites; os triângulos, os dias de descanso; o «x» a vermelho, a folga. O plano de trabalho não está afixado na sala de Enfermagem, por cima daquela bancada cheia de gavetas. Hoje, atrás da porta do roupeiro, discretamente, está um papel que é actualizado com o nome das pessoas que são alvo dos cuidados, os dias e as horas dos exames, das consultas, dos tratamentos.

Na unidade de cuidados intensivos de cardiologia havia (e há) uma área central. Parecia a sala de controlo da nave Enterprise, composta por uma mesa, monitores, computadores, aparelhos com luzes e apitos. A partir dali, era possível ver e acompanhar todas as pessoas que estavam a ser cuidadas. A sala de controlo foi transferida para o cantinho do quarto, junto à janela, onde sentada no sofá organiza os dossiers dos relatórios das análises, escreve os planos terapêuticos (várias cópias), inventa menus que agradem a gregos e a troianos, para que todos se sintam bem à mesa.

Se durante os turnos das noites mais tranquilas, era preciso lutar contra o sono, no cadeirão preto, acontecia aquele fenómeno que é o salto imediato para a vigília. Sem dormência. Sem a voz alterada. De olhos abertos e mãos prontas. Ainda impressiona, a rapidez com que a São, deitada no sofá, se levanta de um salto, porque ouviu uma respiração diferente, porque há ruídos que não escuto, mesmo estando as portas abertas.

Quando chegou o momento do parto final do Rui, na hora da vigília mais longa, era ela quem estava de serviço.

cumpriu-se

Março 20, 2014 § 1 Comentário

e

A Eneida esconde uma história de amor entre Pais e Filhos. Durante a fuga de Tróia, Virgílio desenha uma cena inesquecível: Eneias leva o Pai, Anquises, ao colo, enquanto segura na mão do Filho.
Apesar das intenções políticas e programáticas na redacção da obra, com o objectivo de legitimar o poder de Octávio César Augusto, o autor conseguiu tocar um nervo da experiência humana. Diante do inesperado, quando somos chamados a assumir a vida em nome próprio… o que fazer?
Levamos connosco a memória da experiência, o amor que nos gerou… e ousamos acertar o passo ao ritmo incerto de uma esperança que vai crescendo.
Esta estátua é uma das muitas obras que retratam a cena. Falta o Filho de Eneias, mas toca-me o modo como um pedaço de pedra revela a ternura de um Filho e de um Pai, num momento de fragilidade.

O meu nome, Eneida, esconde uma história de amor. É em nome dela que suporto os inconvenientes de ter de soletrar, ser chamada de Irene, Inês, Ineida, Heneida ou outras variantes mais criativas. Serve para quebrar o gelo numa conversa. Curiosamente, não tive problemas na escola. O ambiente protegido e o colega com o nome de origem mitológica facilitaram-me a vida. A maior perplexidade parte de quem frequentou seminários católicos, uma minoria nos meios em que me movimento. Aposto que há uma cláusula, segundo a qual, quem tiver um nome descaradamente pagão, incorre numa pena de ridicularização in saecula saeculorum. Tive oportunidade de optar pelo meu segundo nome. É elegante, de uma mulher do Antigo Testamento. Mas, não fiz a vontade ao bispo que me confirmou. Não gosto do significado, nem da história bíblica que lhe está associada.

Prefiro o nome que o meu Pai escolheu para mim, muitos anos antes de eu nascer. Assumo o amor com que o meu Pai me sonhou, antes de eu ser gente.
Um reflexo daquele Amor tão Humano, que só poderia ser de Deus (L. Boff).

O meu Pai e eu temos em comum o gosto pelos sentidos do silêncio e das palavras. Ao olhar para esta estátua e fazendo memória do caminho que percorri com o meu Pai, vejo o sentido do meu nome. Cumpriu-se.