respigar

Agosto 16, 2011 § Deixe um comentário

O cais palafítico da Carrasqueira é a marina de trabalho, construída por quem precisa de aproveitar tudo o que a natureza dá na terra, no rio e no mar. Desde a década de 50, a população da Carrasqueira assenta estacas e tábuas para construir passadiços até ao local onde estão atracados os barcos no estuário do Sado.

É preciso caminhar para ver bem o que está diante dos nossos olhos. Os passadiços ligam-se entre si, criam passagens desordenadas, labirintos. Há redes de pesca limpas, prontas a entrar em acção; outras estão caídas e confundem-se com o lodo. Pelo caminho, só podem avançar uma ou duas pessoas de cada vez, com cuidado, para não tropeçarem nalguma tábua partida.

Nesta terra, a necessidade e a esperança arregaçam as mangas na hora da maré baixa para construírem caminho e fazerem-se ao largo. Aproveita-se tudo. Restaura-se o passadiço do vizinho para criar mais uma passagem. Se as tábuas de madeira caíram, firmam-se melhor as estacas e constrói-se de novo. Consertam-se as redes, põe-se a jeito tudo o que é preciso. Entretanto, vigia-se, espera-se a hora da maré cheia.

Há paisagens que fazem parte de nós. Acredito que foi isso que aconteceu no sábado. Quando visitei este lugar, reconheci-o. Sem me aperceber, ingressei na «ordem dos respigadores»: à escuta, a recolher o que vai caindo, a construir caminho aproveitando estacas e pilares firmados por outros. Descobre-se uma vulnerabilidade que aproxima. A maré vai subindo ao ritmo das ondas de gratidão, de esperança, de surpresa, de confiança.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

What’s this?

You are currently reading respigar at tempo comum.

meta