recolhimento e comunhão

Agosto 24, 2011 § Deixe um comentário

Estas palavras de Thomas Merton foram escritas após um momento de contemplação e de comunhão, enquanto passava pelo cruzamento de duas ruas muito movimentadas numa cidade dos EUA, longe do seu eremitério na abadia trapista de Gethsemani.

“(…) estamos no mesmo mundo que todos os outros, o mundo da bomba, o mundo do ódio racial, o mundo da tecnologia, o mundo dos meios de comunicação, dos grandes negócios, revoluções e tudo o mais. Adoptamos uma atitude diferente perante todas estas coisas, porque pertencemos a Deus.

Esta sensação de libertação de uma diferença ilusória constituiu um alívio tão grande e trouxe-me tanta alegria que quase desatei a rir às gargalhadas. E suponho que a minha felicidade se poderia consubstanciar nestas palavras: «obrigado, meu Deus, obrigado, meu Deus, por eu ser como qualquer outra pessoa, por ser apenas um homem entre os demais». É um destino glorioso ser um membro da raça humana, embora seja uma raça dedicada a muitas coisas absurdas e que comete erros terríveis. No entanto, apesar de tudo, o próprio Deus a glorificou tornando-se um dos membros da raça humana! Pensar que um conceito tão comum se transformou repentinamente numa notícia bombástica, como se alguém acenasse com o bilhete premiado de uma lotaria cósmica. Tenho a imensa alegria de ser homem, um membro de uma raça em que o próprio Deus encarnou. Como se os sofrimentos e disparates da condição humana pudessem dominar-me, agora percebo o que todos somos. E se ao menos todos pudessem perceber isto! Mas não é possível explicá-lo. Não há maneira de dizer às pessoas que elas são como brilhantes cintilando ao Sol.

Isto nada muda na consciência e no valor do meu recolhimento, porque, de facto, a função da tranquilidade é fazer cada um de nós perceber estas coisas com uma tal clareza, impossível de obter por uma pessoa imersa nas preocupações dos outros, nas ilusões alheias e nos automatismos de uma existência altamente colectiva. O meu recolhimento não é, contudo, meu, porque apercebo-me agora até que ponto ele lhes pertence – e sou responsável por ele perante eles, não apenas perante mim mesmo. É por me sentir um com eles que lhes devo o facto de estar só, e quando estou sozinho eles deixam de ser «os outros» para serem eu próprio. Não existem estranhos!”

Thomas Merton, Conjectures of a Guilty Bystander, 1968

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