ora escuta

Dezembro 2, 2011 § 2 comentários

Os próximos posts nasceram de uma conversa na tarde de Domingo com uma amiga, acerca dos sinais exteriores da fé e do que se chama de religião.
Lancei o desafio de partilhar, por aqui, o e-mail que se seguiu. A resposta foi: “Claro!”.

Olá

Lembras-te da nossa conversa de Domingo à tarde, lá em casa?
Acho que, afinal, não sou muito diferente da tua amiga. Já me conheces o suficiente para espreitares para a minha vida, percebendo que estou muito aquém do caminho que quero seguir.

Resta-me esta esperança em que me firmo: acredito no Deus que move céus e terra para viver connosco. Acredito mais no Amor Dele por nós do que na minha piedadezinha. Acredito mais naquilo que Deus faz por nós do que na minha arrogância em cumprir preceitos. Acredito no Amor gratuito e desinteressado que Pai e Mãe sentem pelo bebé que tomam nos braços, tendo como única certeza um período de noites mal dormidas, trabalhos, canseiras e a mais pura alegria.
Se eu me atrevesse a resumir a história de Deus connosco numa frase seria esta: “eu hei-de amar uma pedra, beijar o teu coração”. Não, isto não está na Bíblia. Está no início de um livro de António Lobo Antunes (um dos que está no meu Índex de livros que não tenho coragem de ler até ao fim, como o Principezinho… enfim… já me conheces…).

Esta semana começou o novo ano litúrgico, que marca o ritmo da caminhada. Começamos pelo tempo em que nos juntamos ao povo de Israel, alimentando a expectativa, o desejo, a fome, a sede.
Durante este tempo até ao Natal – que chamamos de Advento – lemos as palavras dos profetas, os homens mais improváveis que nos momentos menos oportunos têm a ousadia de encarar de frente a realidade, sintonizar com os anseios do coração dos homens e, nesse lugar (é sempre nesse lugar), escutar a voz de Deus que teima em anunciar tempos novos.

Depois de escutar estas palavras durante tantos anos, parece que estou a saboreá-las pela primeira vez, encantada pelos sonhos de Deus, anunciados por estes homens, que superam o que eu poderia imaginar ou desejar. Acredito que se lermos o mesmo texto, a tua perspectiva será diferente da minha.

Antes que os dias voem até ao Natal, lembrei-me de partilhar contigo as palavras dos profetas que se lêem nesta época.
Nos tempos que correm, parece que tudo está consumado, retomou-se a ideia de fim da história… O que custa ouvir palavras de esperança, outras propostas?

Ora escuta:

Foto de jaime.silva (Flickr)

Naquele dia, sairá um ramo do tronco de Jessé e um rebento  brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus. Animado assim do temor de Deus, não julgará segundo as aparências, nem decidirá pelo que ouvir dizer. Julgará os infelizes com justiça e com sentenças rectas os humildes do povo. Com o chicote da sua palavra atingirá o violento e com o sopro dos seus lábios exterminará o ímpio. A justiça será a faixa dos seus rins e a lealdade a cintura dos seus flancos. O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. A vitela e a ursa pastarão juntamente, suas crias dormirão lado a lado; e o leão comerá feno como o boi. A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora. Não mais praticarão o mal nem a destruição em todo o meu santo monte: o conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas enchem o leito do mar. Nesse dia, a raiz de Jessé surgirá como bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa.
Livro de Isaías, capítulo 11, versículos de 1-10

Tudo isto começa a partir de um tronco de uma árvore já plantada entre nós!
Isaías refere o nome de um homem – Jessé – Pai de David, para indicar que tudo se fará com os homens, partindo da nossa matéria-prima.
Saborear isto leva-me à confiança na bondade radical da nossa natureza… mesmo que apareça desfigurada, pelos desvios dos medos, da violência.

Anúncios

§ 2 Responses to ora escuta

  • Sara diz:

    Se calhar não seria este um bom dia para pensar na tua fé, e nestas que são para mim, estranhas formas de vida; confesso que a esperança não está sentada ao meu lado hoje e o sarcasmo veio no seu lugar, por razões alheias a estas, que são tão maiores.
    Esta visão idílica “A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora”, que se tenta constantemente incutir na mente das pessoas é um fiasco. Construímos coisas, fazemos os laços, com nós fortes e resistentes, com vigor e amor. Depois o que se constrói desconstrói-se, vai-se deteorando ou alguém começa a testar as falhas e ver por onde pode cair. O melhor, pelo sim ou pelo não, é estar sempre construir, sem esperança na fiabilidade da nossa engenharia emocional, que se desmorona e se deixa estragar.
    A presença do Omnipresente não me toca. A vossa Companhia, eu não a sinto.
    Continuo a encontrar beleza nestes textos, que contêm uma moral importante, uma mensagem fundamental, mas que chega até mim da mesma forma que a outros, sem eu ter que afiliar.
    Não há super-poderes, nem penses em pretensões, concordo a tua linguagem, não a acompanho da mesma forma.
    Nota: O advento devia ser todo o ano. As mensagens de anúncio de novos tempos surgem sempre, já culturalmente, nesta época, mas criam expectativas. É legítimo/justo criar expectativas com base em nada de certo, a não ser que se as coisas correrem mal, Ele vai continuar por lá para te ouvir?

  • eneida diz:

    “É legítimo/justo criar expectativas com base em nada de certo, a não ser que se as coisas correrem mal, Ele vai continuar por lá para te ouvir?”

    Deixei repousar esta pergunta.
    Continuo a sentir o mesmo.
    Gosto muito da pergunta, mas não sei como responder. Não sei se é possível apresentar uma resposta estruturada, fundamentada.

    Não sei de que gosto mais: se da liberdade da tua pergunta ou da libertação do dever de resposta, quando só tenho a vida para mostrar e apenas consigo dizer: «estou aqui», não quero fugir de mim, das pessoas com quem vivo, nem de Deus.

    É só isto que consigo dizer.

    Evito considerar Deus um refúgio, um porto seguro, uma válvula de escape, mas às vezes… dava jeito acreditar que fosse assim.

    Obrigada pela pergunta, desculpa se a resposta é decepcionante.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

What’s this?

You are currently reading ora escuta at tempo comum.

meta