da estrela à graça

Dezembro 23, 2011 § Deixe um comentário

Ontem o trânsito estava parado. Fui caminhando. O sinal na última paragem aumentou o tempo de espera de 13 para 17 minutos pelo próximo transporte. Continuei a subir até à Estrela. A partir dali, ou arriscava caminhar pela escuridão até outra paragem na Praça Álvares Cabral ou aproveitava o eléctrico. Entrei sem saber se era o 25 ou 28, preparada para dar uma volta maior, com a única vantagem de não ficar parada à espera.

Há tanto tempo que não ouvia o ruído do eléctrico! O tic-tac do sinal de paragem. As madeiras a ranger. Os movimentos que desafiam o equilíbrio. O silvo metálico dos carris. O único condutor que tem a liberdade de buzinar a seu bel-prazer é o do eléctrico. Apita quando faz uma curva, apita a quem se mete à frente e martiriza um quarteirão inteiro se algum artista estacionou o automóvel a bloquear o caminho.

Ao descer a calçada, percebi que estava no eléctrico 28, no caminho da Estrela à Graça.
Deixei-me ir.
No interior havia muitos lugares vazios, mas as preocupações que se avolumam nesta época deviam ocupar os 20 lugares sentados e 38 lugares de pé. Lembrei-me de nomes, de rostos de antigos colegas que fugiam deste tempo.
Deixei-me ir.
A falta de iluminação da cidade intensifica as luzes que estão em algumas montras e penduradas nas árvores. Há coisas que se vêm melhor assim, quando o olhar vai seguindo o rasto de um brilho ou de uma luz que vai iluminando, revelando sombras, sem encandear.
Depois de roçar nas pedras da Sé, entra por ruas estreitas e pára em frente a janelas de salas de jantar, sem pedir licença. Esta proximidade deve intimidar alguns turistas.
Deixei-me ir até à Graça.

Em Lisboa é assim. É possível apanhar um eléctrico da Estrela à Graça.
Durou só um instante o sorriso que interrompeu este pensamento, as associações natalícias que apareceram, porque o eléctrico 28 passa pela Graça e segue até ruas de Lisboa que estão cada vez mais escuras, tristes, para onde custa olhar.
Saí na Graça e segui para casa.
Ainda não sou capaz de deixar-me ir.
Luz terna, suave, no meio da noite,
Leva-me mais longe!

Vem para aqui, Jesus!

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