pedra de tropeço

Janeiro 24, 2012 § Deixe um comentário

Acho Graça quando me apercebo de situações e pessoas que costumam espreitar-me em locais inesperados, como se tivesse de tropeçar nelas, porque, por mim, não seria capaz de atingi-las sozinha.

O nome de Erri de Luca aparece-me em conversas, no twitter, em e-mails, nas livrarias… Contra todas as expectativas, no verso do programa de uma aula estava um excerto do livro Caroço de Azeitona.
Desde quinta-feira, leio e releio este texto que transcrevo, sem a ousadia de omitir uma palavra.

 

 

“Como leitor assíduo das Sagradas Escrituras, frequento o hebraico antigo das primeiras histórias, dos profetas e dos salmos recolhidos no Antigo Testamento. Este uso quotidiano não fez de mim um crente. A experiência de leitor acampado fora dos muros da cidade decorre, para mim, de dois obstáculos.

O primeiro é a oração, este poder e possibilidade de o crente se dirigir. Chamar «tu» a Deus, com variantes que vão da imprecação à súplica, é o arbítrio maravilhoso da criatura que remonta à sua origem e a interroga, por ela chama e a sacode na sua distância. Quem pela primeira vez exclamou a primeira oração não a pode ter inventado. Só pode ter reagido a um chamamento com uma resposta, como Abraão, com o seu «hinneni», eis-me aqui. Eis-me aqui é a primeira palavra, a premissa de toda a oração. A criatura separa-se do resto da espécie e da criação, exclui-se para estabelecer a relação. A oração acontece sempre numa extremidade do campo. Lê-se no salmo 78: «E conduziu-o à sua morada santa» (Sl 78, 54). Deus leva os hebreus para o deserto, porque aquele é o lugar do encontro. Não os chama num centro, numa praça, mas no isolamento inóspito do vento e do pó.

No deserto: é este o lugar físico da oração. O crente cria vazio à sua volta e desta forma faz acontecer o encontro.

Leio no versículo do salmo uma dupla deslocação: a do povo, que segue o grande caminho do deserto, e a de Deus, que se desloca também ele para andar. Renunciou a estar em todos os sítios, para dar lugar à criatura e à criação, e como tal também ele deve alcançar a margem para encontrar os seus. O silêncio de Deus é a sua escuta, quem reza, alcança-o.

Não o sei fazer, não sei dirigir-me a ele. Talvez alguém como eu se aferre demasiado à escrita porque não sabe sequer dirigir-se aos outros e reduz o intercâmbio a este espasmo da mão, ao sobe e desce de uma caneta que traça letras numa folha. Finjo que é a minha voz, o impulso de suscitar um sorriso, um acordo, um afecto. Não sei dirigir-me, não sei o pronome da oração. Pratico o substituto «tu» da escrita.

Falo de Deus na terceira pessoa, leio sobre ele, ouço falar dele e sinto outros viverem dele (peço que me deixem usar a letra minúscula de «ele»; quem não acredita, não tem direito a usar maiúscula). Os voluntários cristãos que ao longo de cinco anos me levaram com eles como motorista das colunas de ajuda humanitária, na Bósnia, vivem deste «ele». Junto deles, dou-me conta, experimento esta dedicação simples, este oriente que protege, mesmo quando extenua. Escrevo estas palavras à sua sombra. Falo de Deus na terceira pessoa, porque leio o seu nome nas histórias sagradas todos os dias. Sou Testemunha indirecta: vejo as palavras do Antigo Testamento como não redutíveis à obra de vários autores, vejo as vidas dos amigos católicos como não redutíveis ao seu bom carácter ou à sua boa vontade, mas como que escavados por uma impressão digital. Com tudo isto permaneço alguém que fala de Deus na terceira pessoa. O meu pé tropeça todos os dias nesta pedra da oração, não a pode ultrapassar porque a oração é o umbral.”
Erri de Luca, Caroço de Azeitona, Assírio e Alvim, 2009, 7-9

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