mandar postais

Fevereiro 28, 2012 § Deixe um comentário

Tenho os postais que o meu avô lhe mandava da guerra em França, derramados de ternura para um garotinho de dois anos. O paizinho gostava que o Janjão, etc. Andam os dois por aí agora, o Janjão e o paizinho. E, se calhar, o Janjão continua a receber postais. E de certeza que o Janjão continua a receber postais. É verdade não é, senhor, que continua a receber postais? Mesmo de bata, no hospital, mesmo professor, mesmo importante? Postais. Há quanto tempo não recebo postais. Uma carta de vez em quando, papelada da agência, das editoras, dos tradutores mas postais, postais-postais, népia. E aqueles que andam por aí, sei lá porquê, não me mandam nenhum. Ou mandam-se a si mesmas e acham que chega. E, em certo sentido, chega. Mas umas palavrinhas, num cartão, caíam bem, há alturas em que umas palavrinhas num cartão caem bem. Não sei porquê mas caem bem.

António Lobo Antunes, «Aqueles que andam por aí», Visão, 19 Jan. 2012

Registar num pedaço de papel o momento em que a memória resgatou à história um rosto, um nome, uma data, é uma das maiores demonstrações de cuidado, de ternura salvadora.

Os gestos que resgatam uma vida estão à distância de um abraço que se estende.
É preciso tão pouco para que alguém se faça presente.

[Sabe-me bem reconhecer que aprendi com o meu Pai e a minha Avó este gosto pelos postais para marcar e inscrever o tempo.]

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

What’s this?

You are currently reading mandar postais at tempo comum.

meta