camões

Junho 10, 2012 § Deixe um comentário

Pouco me importa a falta de veracidade de alguns dados biográficos de Luís Vaz de Camões. Para mim, este é o bilhete de identidade de um homem que ousou arriscar a reputação na defesa de uma mulher abandonada pelo marido, numa situação de fragilidade económica, presa na cadeia do Limoeiro, em risco de ser desterrada.

Os versos de amor fraterno são mais belos e fortes do que qualquer poema de amor cortês.

Excerto de uma carta dirigida ao regedor

Peço queirais ouvir, que, na verdade,
zelo e amor de Deus me persuade.

Não vos seja pesado o atrever-me
a querer empreender sujeito alheio,
porque fizeram lágrimas mover-me
vir ante vós, ousado e sem receio.
E se por tal quiserdes conhecer-me,
servindo-vos de mim, por algum meio,
o nome, o braço, a Musa e quanto posso,
há já muito, senhor, que tudo é vosso.

Ouvi da pobre Dona Caterina
o grande desamparo inopinado

Haja, senhor, cuidar que é moça pobre;
que pobreza não tem nenhum respeito

Vede, senhor, o risco a que se obriga
a desditosa e frágil mocidade,
se honra não vai buscar ou parte amiga
que lhe defenda sua honestidade.

Olhai que tem, senhor, uma menina
do ausente consorte e filha sua,
muito desamparada e pequenina,
fora do natural, despida e nua.
Sede vós, senhor, água da Piscina;
a vosso zelo tudo se atribua;
que movendo-vos ele, não duvido
que tudo a ela seja concedido.

Ninguém encomendou este serviço a Camões. Foi ele que, de livre e espontânea vontade, tomou o partido pela defesa de uma ré, segundo a lei. Diante de todos os que assistiam, empenhou engenho e arte na composição desta carta em rima, desfiando a vida, as intenções e as justificações desta mulher perante os acusadores.

Sempre que alguém se deixa inquietar, ao ponto de comprometer a vida pela defesa de alguém, cumpre-se a promessa: ninguém passa sozinho pois o Espírito Santo – o nosso guardador, o tradutor do dialecto de simplicidade inscrito no dia-a-dia e em cada coração pelo Pai – está entre nós e tão irrequieto como no início.

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