(in)completas

Outubro 7, 2012 § Deixe um comentário

 

 

Disseram que era um dia especial e fizeram planos.
Só queria passá-lo contigo. Mas, tu raramente estás sozinho.

Agora sim, chegou a nossa Hora: o momento das (in)completas!
É a minha hora, não a troco por nada.
Preciso dela para aguçar a sede,
para tomar o gosto e saber-me sempre a pouco,
para abrir as mãos e a vida,
porque sem ti estou (in)completa, Yeshu.
Continuo a pedir-te que sejas a minha pedra de tropeço, em vez de refúgio.
Gosto de ficar diante de ti sem saber o que dizer-te.
Gosto quando me calas.

Procurei um hino especial para hoje.
Partilho-o, porque afinal nem nesta hora estou sozinha.
Contigo estamos em comunhão.

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
— e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

(excerto do poema «Tríptico» de Herberto Helder)

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