à escuta

Novembro 9, 2012 § Deixe um comentário

Para ouvir bem é preciso desligar o aparelho auditivo.
Alheamento? Não. É um exercício de sintonia que ando a aprender graças à memória de Vida de um homem bom, atento, comprometido.

Numa aldeia raiana da Guarda, quando a homilia resvalava para as advertências da polícia de costumes, o meu bisavô Joaquim, que era surdo, desligava o aparelho. Se alguém queria comentar, respondia calmamente: “Eu não ouvi. Assim, não pecou ele, por ter falado, nem pequei eu, por tê-lo ouvido.” A linguagem do pecado passava longe da boca, talvez porque não lhe habitava o coração.

Em vez de se enlear nas palavras, via o que era importante. Quando chegava o momento, respondia, dava a cara, envolvia-se em lutas ao lado de quem estava em dificuldade, pela campanha de Humberto Delgado nos anos anteriores, mesmo que tivesse de suportar incompreensões, críticas, as noites sem dormir da família e amor, muito amor.

Não sei quando comecei a usar esta expressão, “desligar o aparelho”, que passou a fazer parte do vocabulário familiar, no trabalho, entre amigos.

De ouvidos tapados, escuta-se melhor. Em vez do som das palavras, sente-se a ressonância, a vibração que nos atinge.
Há momentos que exigem este exercício de sintonia para conseguir ouvir aquilo que se esconde nas palavras: a dúvida que atormenta um discurso de certezas; a crítica que serve para dirigir o olhar para longe dos erros próprios; o medo de perder que amarga qualquer declaração de amor; a ansiedade por ser útil que nos perde em gestos redundantes, rídiculos, sem sentido; as linguagens velhas recuperadas em palavras inéditas, vendidas como novidade, mas que apodrecem em pouco tempo.

Na intimidade, acredito que é um acto de amor libertar aqueles que amamos da responsabilidade de nos dizerem, de nos definirem, de nos (co)responderem. É possível aproximarmo-nos e revelarmo-nos reciprocamente, mas há um chão sagrado de difícil acesso.

Quem pode dizer-nos?
Quem tem acesso à Tenda que levamos dentro de nós, ao longo do caminho que fazes connosco?
Ensina-me esta sabedoria de fechar os ouvidos, para entrar em sintonia e escutar verdadeiramente… abre-me.

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