cumpriu-se

Março 20, 2014 § 1 Comentário

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A Eneida esconde uma história de amor entre Pais e Filhos. Durante a fuga de Tróia, Virgílio desenha uma cena inesquecível: Eneias leva o Pai, Anquises, ao colo, enquanto segura na mão do Filho.
Apesar das intenções políticas e programáticas na redacção da obra, com o objectivo de legitimar o poder de Octávio César Augusto, o autor conseguiu tocar um nervo da experiência humana. Diante do inesperado, quando somos chamados a assumir a vida em nome próprio… o que fazer?
Levamos connosco a memória da experiência, o amor que nos gerou… e ousamos acertar o passo ao ritmo incerto de uma esperança que vai crescendo.
Esta estátua é uma das muitas obras que retratam a cena. Falta o Filho de Eneias, mas toca-me o modo como um pedaço de pedra revela a ternura de um Filho e de um Pai, num momento de fragilidade.

O meu nome, Eneida, esconde uma história de amor. É em nome dela que suporto os inconvenientes de ter de soletrar, ser chamada de Irene, Inês, Ineida, Heneida ou outras variantes mais criativas. Serve para quebrar o gelo numa conversa. Curiosamente, não tive problemas na escola. O ambiente protegido e o colega com o nome de origem mitológica facilitaram-me a vida. A maior perplexidade parte de quem frequentou seminários católicos, uma minoria nos meios em que me movimento. Aposto que há uma cláusula, segundo a qual, quem tiver um nome descaradamente pagão, incorre numa pena de ridicularização in saecula saeculorum. Tive oportunidade de optar pelo meu segundo nome. É elegante, de uma mulher do Antigo Testamento. Mas, não fiz a vontade ao bispo que me confirmou. Não gosto do significado, nem da história bíblica que lhe está associada.

Prefiro o nome que o meu Pai escolheu para mim, muitos anos antes de eu nascer. Assumo o amor com que o meu Pai me sonhou, antes de eu ser gente.
Um reflexo daquele Amor tão Humano, que só poderia ser de Deus (L. Boff).

O meu Pai e eu temos em comum o gosto pelos sentidos do silêncio e das palavras. Ao olhar para esta estátua e fazendo memória do caminho que percorri com o meu Pai, vejo o sentido do meu nome. Cumpriu-se.

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