vigílias

Maio 4, 2014 § Deixe um comentário

pintura de Emma Cano

pintura de Emma Cano

Deu-me à luz no final de um turno no hospital.

Em casa, para além do ritmo dos filhos e do Rui, havia outro compasso, marcado pelo horário da São: manhã, manhã, tarde, tarde, noite, noite, descanso, folga. Quando surgia algum contratempo, os turnos sobrepunham-se, mas o ritmo continuava: manhã, manhã, tarde, tarde, noite, noite, descanso, folga…. Depois das noites, a adrenalina continuava mais tempo em circulação. O cansaço só chegava depois do descanso. É preciso repousar para que o cansaço desça aos músculos e comece o trabalho de reparação. O milagre da harmonia, entre os ritmos de todos, acontecia graças à Avó.

A agenda já não está marcada com os círculos abertos que assinalavam as manhãs; as barras, as tardes; os pontos, as noites; os triângulos, os dias de descanso; o «x» a vermelho, a folga. O plano de trabalho não está afixado na sala de Enfermagem, por cima daquela bancada cheia de gavetas. Hoje, atrás da porta do roupeiro, discretamente, está um papel que é actualizado com o nome das pessoas que são alvo dos cuidados, os dias e as horas dos exames, das consultas, dos tratamentos.

Na unidade de cuidados intensivos de cardiologia havia (e há) uma área central. Parecia a sala de controlo da nave Enterprise, composta por uma mesa, monitores, computadores, aparelhos com luzes e apitos. A partir dali, era possível ver e acompanhar todas as pessoas que estavam a ser cuidadas. A sala de controlo foi transferida para o cantinho do quarto, junto à janela, onde sentada no sofá organiza os dossiers dos relatórios das análises, escreve os planos terapêuticos (várias cópias), inventa menus que agradem a gregos e a troianos, para que todos se sintam bem à mesa.

Se durante os turnos das noites mais tranquilas, era preciso lutar contra o sono, no cadeirão preto, acontecia aquele fenómeno que é o salto imediato para a vigília. Sem dormência. Sem a voz alterada. De olhos abertos e mãos prontas. Ainda impressiona, a rapidez com que a São, deitada no sofá, se levanta de um salto, porque ouviu uma respiração diferente, porque há ruídos que não escuto, mesmo estando as portas abertas.

Quando chegou o momento do parto final do Rui, na hora da vigília mais longa, era ela quem estava de serviço.

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