conhecer o nome

Setembro 23, 2013 § Deixe um comentário

Protegemo-nos de notícias incómodas. Mantemos a violência, a sordidez da realidade à distância segura de um comando de televisão ou de um virar de página.

Aprende-se que a protecção é um instinto de sobrevivência, mas na lógica do Reino quem procura viver imune, intocável numa redoma, acaba por perder a vida. “O amor não é inocente, o amor contamina, compromete, faz assumir o sofrimento do outro” (Luciano Manicardi).

A 23 de Setembro, assinala-se o dia internacional contra a exploração sexual de mulheres e de crianças.
Os números e as estatísticas revelam que este negócio está a tornar-se mais rentável do que o tráfico de droga. Precisamos de conhecer os nomes das pessoas para derrubar os muros de silêncio, para encontrar caminhos de aproximação. Esta é a história de Sandra.

Artigo de Patricia Simón (periodismohumano.com)
O caso de Sandra é paradigmático do tráfico de mulheres de origem nigeriana para fins de exploração sexual. O recurso ao vudu como forma de coacção, as redes próximas do meio familiar e as ameaças contra este, assim como o engano de uma dívida que se justifica pelos gastos da viagem e pode atingir os 60.000€. Sandra considera que teve sorte, porque o valor exigido pelos seus traficantes foi de 45.000€, uma redução que se deve ao facto de Sandra não ter viajado de avião, como lhe prometeram inicialmente, mas a pé com outras “sessenta e tal pessoas”, durante um ano e meio “porque não havia dinheiro para o automóvel. Desde a Nigéria até Marrocos. (…) Nove horas num barco até Espanha. E doze mortos, porque naufragou. Em vários meios de transporte até Palma de Mallorca, onde a esperavam.

“Quando estava a sofrer, sem forças (…) Arrependi-me muito. Vi pessoas a morrer, sem comida…”

“A pessoa que me explorava ainda tem quatro mulheres mas não vou denunciá-la (…) Acabei de pagar no ano passado e durmo muito feliz porque já não me telefona, não me insulta, nem ameaça…”

Chegou em Abril de 2002 e terminou de pagar a dívida em 2011. “Quando digo à minha família que aqui não é fácil, não acreditam em mim. Mas é normal, eu também não acreditava”. Sandra sai a correr para uma entrevista de emprego. Tem 31 anos, foi vítima de tráfico, mas também graças à ajuda da associação para a prevenção, reinserção e atenção à mulher que exerce a prostituição, Sandra aprendeu a ler e a escrever, espanhol, informática e tudo o que precisa para seguir adiante.

Para ler o artigo completo, clicar aqui.

o tempo das cigarras

Setembro 1, 2013 § Deixe um comentário

“Não parece Agosto!”
Foi a frase mais repetida.
Agosto tornou-se o mês de todas as romarias na minha aldeia. Gente do centro e das periferias levanta-se, de manhã cedo, em peregrinação às capelinhas da segurança social, do act…
Espera-se que a porta abra para tirar uma senha. Depois, é preciso esperar mais. Há quem prefira fazer tempo no café mais próximo. A maior parte toma o seu lugar, sentado ou encostado a uma parede.
Ninguém está sozinho. Aqueles que não têm ao lado um amigo, um familiar ou a criança do vizinho para garantir um atendimento prioritário, trazem muitas pessoas nos pensamentos, nas perguntas sem resposta.
A melodia de fundo conta uma só história… Quando se fala do que aconteceu, só mudam os nomes e as circunstâncias, porque as causas que os trouxeram até ali são as mesmas.
Levanto os olhos do Dinossauro Excelentíssimo e vejo, diante de mim, o retrato das palavras de José Cardoso Pires.

[Nos momentos de desconcerto, acontece-me ir até à prateleira e enfiar-me pela história do Corvo Vicente e sigo… Não sei explicar. Faz-me companhia há muitos anos. Não sei o que me deu para andar a ler fábulas desde Junho.]

Agora é o momento em que as formigas deixarão a vida de cigarra, para abraçarem o trabalho, com espírito empreendedor e flexível, de preferência. A partir de hoje, torna-se mais evidente a diferença.
O Verão vai passar, mas vai continuar a ouvir-se o ruído das cigarras.
Não peçam às cigarras para se calarem, porque são elas que estão a entoar os mais inspiradores cantos de resistência e de superação. 

Eu te bendigo, oh Pai, Senhor do céu e da terra, Senhor de todas as nossas horas!
Só Tu, que trabalhas sempre, sabes o que significa a desocupação, a privação do trabalho… tão diferente do descanso!
Por ser igual a Ti, o Teu Filho, viu os jornaleiros a fazerem tempo nas praças, à espera de serem chamados (Mt 20, 1-16). O Teu Filho viu e vê os precários, os mal-pagos, os desvinculados, os “independentes”, aqueles cujo posto de trabalho foi extinto e… foram extintos com ele e viram o nome picado na pedra.
Tu vês. Tu vês os dispensados, os considerados imprestáveis, os que deixaram de esperar e de acreditar em qualquer convite… Tu não deixas que se percam nesta mentira. Na hora do naufrágio e da obscuridade, és Tu Quem resgatará!
Tu chamas para o serviço, mesmo que já passe das quatro da tarde.
Ninguém está a mais no Teu Reino.
Só Tu és Bom. Só Tu és Bom. O Senhor que tomou partido dos escravos, vê e chama os que sofrem a opressão da ausência ou da precariedade do trabalho.
Só Tu és Bom!

posta-restante

Julho 31, 2013 § 2 comentários

Finalmente chegou o dia em que te apresentaste!

Apanhaste-me de surpresa há quatro meses. Durante o percurso até à estação de metro, fui ouvindo as tuas primeiras palavras. Fratellanza… soou-me tão bem esta aliança de irmãos – a única. Lembro-me que parei, quando pediste silêncio e te inclinaste para receber de nós… e nós demos e tu recebeste. Talvez seja esse momento a chave do mistério de sintonia, que permanece até hoje.

Dei-te o benefício da confiança e deixei-te em paz. Quando todos falavam acerca de ti, desliguei o aparelho auditivo. Limitei-me a ler o que diziam aqueles em quem confio, que estavam mais interessados em lançar perguntas e desafios, do que em adivinhar as tuas respostas, calcular os teus passos.

Fui registando alguns instantâneos, guardando algumas palavras… que eram “minhas”. Sim, usaste algumas das “minhas” expressões, aquelas que digo no quarto, à porta fechada, que só o Pai escuta… e que o Espírito vai levando e tecendo, para criar o dialecto que nos aproxima, numa comunhão de pessoas que se reconhecem.

Mas, quem me aproximou de ti foram os meus irmãos que estão “do lado de fora”. É com eles que caminho, partilho a mesa do trabalho e da vida. São eles que sustentam a minha fé. São eles que me levam à celebração, embora não entrem ou não se aproximem da Mesa da comunhão. Foram eles que comentaram os teus gestos, reenviaram e-mails com as tuas homilias (!!!).

Isto é muito importante para mim e, por isso, gostava de contar-te, porque se tu és aquele que confirma os irmãos na fé, eu quero que saibas que tu tens confirmado a minha confiança no Pai Bom, que anda pelas margens da vida a chamar-nos, a congregar-nos. Vou dizer-te um segredo. Aos 13 anos, depois da profissão de fé, passei a sentar-me nas últimas filas durante as celebrações. Estava desencantada, mas não conseguia afastar-me. Um dia, olhei para o lado e lá estava o Pai. Enquanto o Filho preparava a Mesa, o Pai estava ali comigo, junto à porta, do lado de fora, à espera daqueles que eu também amava e que não se aproximavam. Acredito que, ao ver-nos chegar, o Pai olha para cada um de nós e pergunta, com o coração nas mãos: «O teu irmão? Onde está?».

Não tem sido fácil, mas eu não quero outro lugar, até ao Dia do banquete, quando estaremos todos juntos. Tenho a certeza que também não será fácil para ti. Coragem! Os mais belos adornos da igreja são os irmãos na Fé que nos aparecem pelo caminho. São os sinais autênticos deste Corpo que formamos, em comunhão, mesmo que seja à distância.

Escrevo-te hoje, depois da conferência de imprensa que deste lá nas alturas. Gostei do modo como respondeste sem teologismos, sem medo de te expores a críticas. Estava à espera deste dia. É provável – e muito bom sinal – que tenhamos entendimentos diferentes. Vai ser uma caminhada interessante. Sinceramente, não vou sobrecarregar-te com expectativas. Seria um erro ridículo… porque, afinal, tudo esperamos n’Aquele que nos alcançou e caminha à nossa frente, não é?

Despeço-me como deveria ter começado:

Olá Francisco, acho que estamos a tornar-nos irmãos, mais próximos, a cada dia… Está a ser um prazer e uma graça começar a conhecer-te.

A Vida como ela é!

Junho 24, 2013 § Deixe um comentário

A Vida como ela é!

difícil de digerir

Maio 30, 2013 § Deixe um comentário

A pausa a meio do dia deveria ser tranquila, independentemente da duração.  Em vez disso, estive a ler notícias indigestas.

O Velho do Restelo está em regime de mobilidade especial. Entretanto, foi substituído pela Malta Que Quer Ser Jovem do Terreiro do Paço:

“Vejam lá… receber menos é melhor do que não receber…”
“Isto é uma crise de Primeiro Mundo.”
“Há 60 anos, a esperança média de vida era muito inferior e até morriam mais criancinhas!”

Depois, dá nisto…

“Os novos contratados cobram 30% menos do que os seus colegas da mesma empresa.”
Fonte: infoLibre (notícia completa aqui)

Quando se começa a nivelar por baixo, desce-se até onde?
Mas afinal, quantos mundos há e de que modo estão compartimentados, se uma gastrite  na bolsa de NY provoca convulsões nos mercados internacionais?
Quando se flexibilizam direitos, expectativas legítimas, quantas pessoas arrastamos connosco, vinculando-as às nossa decisões e abrindo precedentes?

O Velho do Restelo sabia o segredo: o azedume, o sarcasmo, a ironia que o conservavam, serviam também para acicatar o inconformismo e o espírito crítico de quem o ouvia. A Malta Que Quer Ser Jovem é vibrante, encandeia-nos com iniciativas privadas exemplares; move-se por um entusiasmo, sujeito às conjunturas; organiza uns eventos pirotécnicos… e o Velho do Restelo ri-se, porque já sente o cheiro do fogo-fátuo.

dom de línguas

Maio 21, 2013 § Deixe um comentário

Foi preciso chegar gente da Holanda para me ensinar a cumprimentar o meu vizinho Chinês, na língua dele.

Assim que ouviu um som parecido com «ni-hao», saltou para fora da porta ao nosso encontro. O resto foi dito em sorrisos, gestos… porque ninguém sabia mais!

Precisamos de tão pouco.
Precisamos tanto de gente que fale a nossa língua.
Mas, o dialecto mais precioso é o do silêncio que liberta, que abre espaço para acolher para além das palavras.

o silêncio é um privilégio

foi para a liberdade…

Abril 19, 2013 § Deixe um comentário