tomar, abençoar/bendizer, partir e dar

Junho 24, 2011 § Deixe um comentário

Ontem foi feriado. As ruas de Lisboa estavam quase desertas. Cruzei-me com uma procissão de automóveis parados e a buzinar, rumo à Ponte 25 de Abril.

Este feriado que calha sempre numa quinta-feira suscita dúvidas, perguntas acerca do motivo.

Agrada-me que demore uma vida inteira saborear esta novidade, este mistério que se revela sempre novo e cada vez mais simples, mais entretecido na vida normal de todos os dias.

Em 2009 ouvi, pela primeira vez, estas palavras de Henri Nouwen. Nos próximos momentos, vou traduzir, o mais fielmente possível, alguns vídeos, com a intenção de partilhar (e forçar-me a escutar outra vez) uma mensagem tão simples e real que só poderia ser feita daquilo que nos é comum: o pão, o alimento, o vinho, a bebida, a vida, a alegria, o irmão, a comunhão, a comunidade.

Nada substitui escutar, ver o entusiasmo e o encanto de Henri Nouwen.

“Estou muito grato por ter sido convidado para estar aqui convosco. Gostaria de dizer, com muita simplicidade, que vocês e eu somos as filhas e os filhos muito amados de Deus.

Isto é muito difícil de reclamar/assumir, porque frequentemente pensamos que nós somos aquilo que fazemos; somos o que outros dizem acerca de nós; somos o que temos. Mas, a verdade que Jesus nos anuncia é que nós somos – tal como Jesus – os filhos muito amados de Deus.

É muito importante que no meio deste mundo que continuamente nos diz que nós somos aquilo que fazemos, somos o que outros dizem acerca de nós, somos o que temos, ouçamos esta voz que insiste em dizer-nos: «Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado».

Nesta manhã, gostaria de conversar acerca do modo como podemos viver como os amados filhos de Deus. A história que escutaram era uma história sobre pão. Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e deu-o. Jesus fez o mesmo na última ceia: Ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e deu-o. Jesus entrou em casa com aqueles dois discípulos de Emaús, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e deu-o… e eles reconheceram-n’O. Ao longo da História, continuamos a fazer o mesmo: tomamos o pão, abençoamo-lo, partimo-lo e damo-lo.

Hoje, gostaria que escutassem estas quatro palavras que resumem/revelam a vida de Jesus.

Jesus é aquele que é tomado por Deus, é abençoado por Deus, é partido na cruz e dado ao mundo. Estas quatro palavras resumem/revelam a tua vida como o amado filho de Deus, tal como resumem a vida de Jesus, como o amado Filho de Deus. A nossa vida espiritual, como filhas e filhos de Deus, é uma vida que é tomada, abençoada, partida e dada.

Gostaria muito que, a partir de hoje, recordassem estas quatro palavras. Se pudessem ir para a casa e dizer: «eu sou tomado, eu sou abençoado, eu sou partido e sou dado/oferecido/entregue».

Estas são as quatro palavras que quero oferecer-vos esta manhã, para que possam reclamar/assumir o que significa que são os amados filhos e filhas de Deus. Se conseguirem viver as vossas vidas como tomados, abençoados, partidos e dados, o mundo reconhecerá Jesus ao partir do pão, ao partir da vossa vida.

Somos tomados.

Acreditas que Deus tomou-te? Talvez, haja uma palavra melhor: Deus escolheu-te. Pensa nisso, por um momento. Tu és escolhido por Deus. Significa que Deus viu-te, desde toda a eternidade, como sendo precioso e único aos Seus olhos. Não há outra pessoa que seja exactamente como tu. És único e tens um papel único a desempenhar na história de Deus. A maioria das pessoas não acredita nisto. A maioria das pessoas nem acredita que é bem-vinda a este mundo. Mas, Deus está a dizer-nos: «desde toda a eternidade, Eu vi-te e és único, és o meu escolhido, és especial aos meus olhos».

Espero que compreendas esta surpresa: se acreditas que és escolhido, isso não significa que os outros não são escolhidos. Quando o mundo diz que és o melhor da turma, azar para os outros. Se ganhares um prémio, os outros não o ganharam. Se és escolhido para presidente de uma empresa, os outros não conseguiram. Mas, para Deus isso não é verdade. Se acreditas que és escolhido, Deus dá-te olhos para veres que os outros também são escolhidos. Descobres que o facto de ser escolhido e único, abre um espaço no teu coração para perceberes que os outros são também únicos aos olhos de Deus e em nada diminuem o que há de único em ti.

Esta é a grande notícia e é muito difícil de reclamá-la/assumi-la num mundo de estatísticas, no qual pensas, por vezes, que és apenas um número. Mas, agarra-te/confia nesta notícia, porque é o primeiro sinal de que és o amado filho de Deus.

O segundo sinal é este: és abençoado.

A palavra bênção significa dizer coisas boas. Ser abençoado, significa que Deus diz-te coisas boas.”

Para continuar a escutar

“Na minha comunidade de pessoas com necessidades especiais há uma mulher maravilhosa chamada Janet. Fui a uma das nossas residências e vi a Janet aproximar-se e pedir: «Henri, podes abençoar-me?». Como um bom padre, levantei a mão e disse: «Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo». A Janet disse que assim não valia. Perguntei-lhe porquê, mas ela insistiu que não valia. Fiquei confuso. Perguntei: «O que queres?». Janet respondeu: «Quero uma bênção!» .

Depois do serviço, estavam muitas pessoas sentadas no chão, e contei-lhes que a Janet queria uma bênção. Então, coloquei a cabeça dela junto ao meu peito, abracei-a, aninhei-a a mim, levantei-lhe um pouco o queixo e disse-lhe: «Janet, tu és uma mulher muito bonita. És tão bonita! Nós amamos-te tanto! Sei que hoje estás um pouco em baixo… Precisas de ouvir outra vez que tu és amada; que Deus e nós amamos-te!». Ela olhou para mim e disse: «Sim, Henri, é verdade!» e afastou-se. De seguida, todos os outros começaram a pedir uma bênção. As pessoas começaram a subir e eu abençoei-as, abracei-as e disse-lhes como eram boas. Por fim, um dos assistentes, um antigo jogador de futebol americano que estava a ajudar-nos (um tipo forte) perguntou: «Então, e eu?». Eu pus as minhas mãos nos seus ombros e disse-lhe: «John, Deus ama-te» … e começaram a cair lágrimas dos seus olhos.

Nós somos chamados a assumir que somos abençoados e a abençoar/bendizer as pessoas, onde quer que estejamos. Essa é a nossa vocação cristã: dizer coisas boas das pessoas. Isto não significa elogiar, mas dizer coisas boas por serem humanas, amadas e dignas de amor.

Mas, também somos partidos/frágeis. Tenho a profunda convicção de que o nosso sentimento de fragilidade neste mundo está muito ligado às relações. Talvez não sejamos pobres física ou economicamente, mas podemos ser pobres, porque o nosso coração está partido. Acredito que cada um sabe o que isto significa. Homem e mulher não conseguem falar bem um com o outro; crianças e pais sentem uma fragilidade na sua relação; amigos, que pensavas que estariam ao teu lado, não conseguem responder às tuas necessidades. Podes sentir uma enorme angústia e dor interior. Se eu perguntar a mim mesmo qual é o meu maior sofrimento, está sempre relacionado com a fragilidade nas relações. Todos nós temos corações partidos. Nalgum momento, as pessoas não nos amaram, do modo como queríamos ser amados. Nalgum momento, sentimo-nos rejeitados, abandonados, incompreendidos, marginalizados.

Quero dizer-vos duas palavras.

Em primeiro lugar, precisamos de ter a coragem para abraçar a nossa fragilidade, em vez de negá-la. Acolher a fragilidade. Reconhecer que sentimos dor, estamos feridos e não vamos fingir o contrário. Exclamar e assumir que estamos em sofrimento, mas, nesta fragilidade, assumir que a dor também é única e pertence-nos.

Precisamos da coragem de abraçar a nossa fragilidade e reconhecê-la como a nossa própria dor. É isto que Jesus quer dizer, quando pede para tomarmos a nossa cruz. Ele não diz para construirmos uma cruz para os outros, nem para nós. Ele pede para, simplesmente, abraçares a tua cruz e dizeres: «é minha».

Nunca serás uma pessoa feliz e alegre, enquanto negares a tua fragilidade e fingires que está tudo bem. Encara-a de frente e não tenhas medo.

Em segundo lugar, gostaria de dizer: atreve-te a colocar a tua fragilidade sob a bênção que diz que tu és bom. Muitos vivem sob uma maldição. Muitos pensam que por não serem suficientemente bons, perderam os amigos, foram traídos… tudo confirma que não são bons. Mas, Jesus convida-nos a tomar a nossa fragilidade e colocá-la sob a bênção/bendição… debaixo das mãos d’Aquele que diz: «Tu és a minha filha muito amada; tu és o meu filho muito amado, em ti pus todo o meu agrado.»

Quando colocares sob a bênção/bendição, serás capaz de repetir as palavras de Jesus: «não sabiam que tinha de sofrer essas coisas para entrar na glória?». Ao colocares a tua fragilidade sob a bênção/bendição… a tua fragilidade pode amadurecer-te, purificar-te, tornar-te mais santo, inteiro para Deus. Isto não é fácil.

Por fim, tu e eu somos dados/entregues.

Tu e eu somos tomados, abençoados, partidos para sermos dados ao mundo. Tu não estás aqui para ti mesmo. Eu não estou aqui para mim próprio. Eu estou aqui para ti. Tu estás aqui para mim. Nós estamos aqui uns para os outros. Nós estamos aqui para as gerações seguintes. A tua vidinha não acaba no dia em que morreres. A tua vida é uma dádiva para a tua família, os teus amigos e, muito além disso, para as pessoas que nem verás, nem conhecerás.

Jesus não pede que sejas bem-sucedido, mas para dares fruto. Como é possível dar fruto sem morrer? Se o grão de trigo, não morrer, não dará fruto. Ouçam Jesus dizer: «É melhor para vós que Eu vá, pois enviar-vos-ei o meu Espírito, a minha respiração, o meu amor, a minha intimidade e sereis conduzidos à verdade total, à comunhão total» (cf. Jo 16, 7).

Se acreditares que a tua vida… é uma vida em que és chamado para dar mais e mais de ti próprio e por inteiro, podes tornar-te alimento e bebida para outros. Quando estiveres disposto a entregar-te aos outros, podes ter a certeza que darás imensos frutos, muito para além da tua vidinha, da tua pequena cronologia e do tempo contado pelo relógio.

Queridos irmãos e irmãs, estou muito feliz por poder partilhar convosco, porque quero que saibam que, tal como a morte de Jesus deu fruto para as gerações seguintes, nós daremos frutos para as próximas gerações. Todo aquele que viver como Jesus – como o filho muito amado de Deus – pode ter a certeza que a sua vida dará frutos para os tempos que se seguirão. Na verdade, todas as gerações, chamar-te-ão bendito/abençoado. Por isso, toma consciência de que cada pequena dádiva, torna-se um fruto e um caminho para viveres como o amado filho de Deus.

Assim, a tua vida e a minha é tomada/escolhida, abençoada/bendita, partida e dada.

Por favor, quando fores para a cama esta noite, olha para o teu dia e pergunta: «Onde é que eu fui escolhido outra vez? Onde é que eu fui abençoado outra vez? Onde é que eu fui partido outra vez? Onde é que eu fui dado?» Cada vez que reconheceres isto, reconhecerás a presença de Deus no teu coração, a presença do Seu Espírito no centro do teu ser… e saberás que tu és o filho muito amado de Deus e que podes viver uma vida livre, livre para amar.”

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